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A Quadra Popular e Algumas Crenças do Povo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

Biblioteca Etnográfica 

E Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e à nossa semelhança.

E Deus prosseguiu: “Não é bom que o homem continue só. Vou fazer-lhe uma ajudadora como complemento dele”. E Deus fez cair um profundo sono sobre o homem e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das costelas e fechou então a carne sobre o seu lugar. E da costela que havia tirado do homem, Deus fez uma mulher. E o homem disse: Esta, por fim, é osso dos meus ossos, e carne da minha carne.

Foi assim, segundo a Bíblia, que Deus fez o par que havia de crescer e de se multiplicar para povoar e fruir o mundo.

Homem e mulher, complementares, iniciam aqui uma relação, que através dos séculos os há-de a toda a hora aproximar e repelir, talvez porque o seu coração foi feito de um barro frágil que tão depressa leva uma das partes a gritar não lhe ser possível viver sem a outra, como, de seguida, a ter manifestações e procedimentos de cansaço e de enfado.

Ninguém como o nosso povo simples e bom, sobretudo através dos seus versos, na maioria feitos para cantar, retratou de forma tão simples e tão sábia, estas relações entre o homem e a mulher.

Deus os fez um para o outro e, por isso, nenhum se sente feliz enquanto não encontra a sua metade complementar:

O pessegueiro é triste
Enquanto não tem flor;
É como o rapaz solteiro
Enquanto não tem amor.

Com elas o sentimento é idêntico:

Eu fui ao Senhor do Monte,
Numa pedra me sentei;
Com sentido no amor,
Nem esmola ao santo dei.

E o pensamento é totalmente preenchido pela omnipresença da pessoa amada:

Amanhã é dia santo,
Hei-de ir à Missa do dia;
Quero ver o meu amor
À porta da sacristia.

E é assim que, nas cantigas populares, o amor preenche mais de noventa por cento dos seus temas, podendo dizer-se não haver situação amorosa que não tenha sido contemplada pelo povo nos seus cantares.

É interessante referir que o que em Portugal se passa com as quadras populares, a sua importância na Cultura Tradicional, a forma como o povo as amava e as cultivava, tinha semelhança em outros povos europeus; mas desejava fazer aqui uma referência particular à analogia de sentimentos e sua expressão, podemos dizer, partilhados pelos povos português e galego, o que não admira, pois, não fora D. Afonso VI de Leão querer obsequiar em finais do século XI o cavaleiro francês D. Henrique de Borgonha dando-lhe em casamento sua filha D. Teresa e ainda o governo do Condado Portucalense propiciando assim todas as peripécias que levaram depois à independência de Portugal, e a velha Galécia dos Romanos que unira povos e marcara a língua, ao tempo Galiza e Portugal, continuariam, não sabemos por quanto tempo, a constituir um todo  geográfico e cultural situado a ocidente da Península, em que se falava a mesma língua e se viviam anseios comuns.

Não admira portanto a quantidade de marcas culturais encontradas na Galiza e que, em muitos casos, em nada diferem das portuguesas, a não ser em alguns pequenos pormenores ortográficos que se minimizam quando quem escreve pertence ou defende a “escola” lusista:

Nosa Señora faz media,
Con liña feita de luz;
O novelo é a Lua Cheia,
E as medias são para Xesus.

Mas voltemos às quadras populares, do lado de cá do rio Minho e, uma vez por outra, espreitando também para o lado de lá.

Como dissemos, a maioria esmagadora delas vive do amor, focando-o em todos os seus aspectos, praticamente, sem excepção.

O amor em geral, a coisa mais bela da vida:

 

Abre-te peito e fala,
Coração, salta cá fora;
Anda ver o meu amor

Que chegou aqui agora.

A paixão:

Maria, tu és na terra,

O que os anjos no céu são;

Se tu morresses, Maria,
Morria meu coração.

O amor difícil de obter:

Que lindo botão de rosa

Aquela roseira tem;

Debaixo não se lhe chega,
Lá acima não vai ninguém. 

 

Ou então:

Antoninho olha a rola,

No telhado da igreja;

Não há tiro que a mate,
Nem caçador que a veja.

 O amor demasiado fácil:

A rolinha chora, chora,

Que lhe roubaram o ninho;

Não o fizeras tu, rola,
Tão à beira do caminho.

 

O amor de quem se fez demasiado rogada:

Já o adro criou relva,

Já não há passeadores;

Já se foram desta terra,
Menina, os seus amores.

O amor quase impossível:

Altas torres tem teu peito,

Eu não posso lá entrar;

Bem puderas tu, menina,

Altas torres abaixar.

O desespero pela falta do amor:

Ai de mim que sou tão nova,
Senhora da Piedade!

Que me vejo sem amores

Na flor da minha idade.

O amor sensual:

A lenha da macieira

Rachada aos cavaquinhos;

Acudam aos namorados

Que se matam com beijinhos.

 O amor físico, o amor total:

Toma lá meu coração,

A chave para o abrir;

Não tenho mais que te dar
Nem tu mais que me pedir.

A importância da chamada pureza feminina:

Ai, meu pai, que me roubaram
A melhor coisa que eu tinha;
A vergonha foi para si,
E a culpa foi toda minha.

O amor mais importante que tudo, incluindo o sentir religioso:

Eu hei-de ir a Santa Marta

Rezar-lhe de cá de fora;

Que me dê um rapazinho
Que me quero vir embora.

Ou então, confessando mesmo os sacrifícios que faz para conquistar a mulher:

Sou soldado, sirvo o rei

E também sirvo a rainha;

Também faço sentinela

À tua porta, Rosinha.

 E a admiração que se tem por tudo quanto muito se estima e deseja:

Aquela menina é minha,

E aqueles olhos são meus;

Aquele corpo bem feitinho

Era o que eu pedia a Deus.

O desabafo de quem já começa a ficar cansado de tanto lutar pelo amor:

Da outra banda do rio

Nem chove nem cai orvalho;

Amor, se tem de ser meu,

Não me dê tanto trabalho.

A paixão publicamente assumida e declarada:

Os olhos da minha amada
São duas azeitoninhas;

Fechados, são dois botões,

Abertos, duas rosinhas.

A mulher apaixona-se com facilidade mas nem sempre tem a correspondência que desejaria nem, no passado, a podia solicitar:

Dei um ai, tu não ouviste,

Suspirei, não deste fé;

O meu coração é teu,

O teu não sei de quem é.

A ideia de que, também no amor, mais vale prevenir do que remediar:

Rosa, de mim estás queixosa…

Tu te queixas sem razão;

Já te encontrei desfolhada,

Não te tirei do botão.

Que belo poeta é o povo e que bonitas figuras emprega nos seus cantares:

No altar de S. João

Nasceu uma cerejeira;

Quem me dera ter a dita

De lhe colher a primeira.

O receio de que o casamento não correspondesse aos generalizados anseios:

Santa Marta da Falperra,

S. João de ao pé de Braga,

Que me dê boa fortuna,

Se eu tiver de ser casada.

O encanto da beleza feminina:

Oh! Que belas moças

Tem a Vidigueira;

Deixam-nos saudades

Para a semana inteira.

A despedida:

  Na Galiza:

Adeus que me vou sem ver-te,

Meu coração sem falar-te;

Minha boca sem dar beijos,
Meus braços sem abraçar-te.

Adeus fontes, adeus rios,

Adeus regatos pequenos;

Adeus casa de meus pais,
Até quando nos veremos.

 Adios que me vou sen verte,

Meu curaçon sem amarte,

Meus lábios sen darche un bico,

Meus braços sen abrazarte.

Adios rios, adios fontes,

Augas de lindo beber;

Corredoiras de meus pais,

Cando vos volverei ver.

A defesa do recato feminino:

Rosa que estás na roseira,

Fechadinha no botão,

Deixa-te estar fechadinha,

Que lá te procurarão.

Ou então:

Rosa que estás na roseira,
Deixa-te estar em botão;
Que a rosa depois de aberta
Logo perde a estimação.

O sortilégio da fonte:

  Na Galiza:
Entre canas e caninhas,
Água deve de nascer;
Menina que estás na fonte,
Anda dar-me de beber.
 Antre canas e caniñas,
Auga deve de nacer;
Mociña que estás na fonte,
Dáme logo de beber.
 

O desinteresse, o cansaço, quase o desprezo:

  Na Galiza
Algum dia p’ra te ver,
Abria sete janelas;
Agora p’ra te não ver,
Não abro nenhuma delas.
 Algún dia por te ver,
Abrin as catro ventanas;
Agora, por te non ver,
Todalas teño pechadas.

O desejo de casar as filhas (impor, como dizia o povo); quem não casava até aos vinte anos era velha para o casamento:

  Na Galiza

Minha mãe p’ra m’eu casar,
Prometeu-me quanto tinha;
Agora que estou casada,
Pagou-me c’uma galinha.

 Miña nai por me casar,
prometéume canto tiña,
agora que me casei,
pagoúme cunha galiña.

O amor consumado:

  Na Galiza
Menina, abre-me a porta,
Senão entro pelas telhas;
O menino já está feito,
Só lhe faltam as orelhas.
  Abreme a porta, rapaza,
Senon entro polas tellas;
Teño un rapaz comenzado,
E fáltanmelle as orellas.

As dúvidas que o amor também pode trazer:

  Na Galiza
Os filhos da minha filha,
Meus netos são;
Os filhos do meu filho
Serão ou não.
 Os fillos da miña filla
meus netos son;
os fillos da miña nora
quizas sin, quizas non.

Algumas crenças relativamente ao casamento:

  Na Galiza
Quem pensa não casa;
quem casa não pensa.
 Xa de abondo pensamos Señor Cura,
E seica non devemos pensar mais,
Que os casamentosdis que son mellores
Aquestes quem quente e sin pensar se fan.

 As dúvidas que sempre assaltam os amigos:

Casadiña de três dias,
Quem che levou os colores?
Nin casada, nin solteira,
Nunca chos tiven millores.

 As tristes realidades de muitas vidas:

Na Galiza
Casadiña de três dias,
Disque levache unha tunda,
Se cho ven as solteiras,
Xa non se casa nigunha.

A constatação de tristes realidades:

  Na Galiza
O sete estrelo vai alto,
Mais alto vai o luar;
Mais alta vai a ventura
Que Deus tem para me dar
 Ai, que alta vai a lua,
Mais alto vai o luar;
Mais alta vai a fertuna
Que Dios ten para me dar.

Entre o homem e a mulher sempre houve disputas e mútuas acusações a propósito de tudo e de nada, mas sobretudo quando os interesses se cruzavam ou quando era preciso mostrar superioridade ou importância, a que quase sempre correspondia um aparente e gostoso desdém pelo outro sexo. De entre muitos possíveis, aqui ficam dois exemplos:

Na Beira Alta, a propósito da criação do Homem, correm algumas lendas, algumas histórias. Umas mais curiosas que outras, todas falando da importância que o povo dava a uma questão como esta, mas deixando também claro que, na luta eterna entre os dois sexos, todas as ocasiões e todos os temas eram bons para cada um atribuir ao outro uma condição de inferioridade. A maior parte das vezes, não passava de uma luta conduzida entre sorrisos, a luta de quem se queria muito bem e só ambicionava uma oportunidade para uma maior aproximação que, inevitavelmente, conduziria ao casamento.

Diz então uma dessas histórias que, quando Deus quis criar a Eva, tirou uma costela ao Adão, mas porque Deus se distraiu, veio um cão e levou-lha. Correu Deus atrás do cão e pegou-o pelo rabo. Sentindo-se preso, o cão fez força, o rabo partiu-se e o cão fugiu. Restava a Deus tirar uma segunda costela ao Adão. Porém, achou que isso seria mais um grande e evitável sacrifício. Assim, olhando para o rabo do cão, soprou-lhe e fez a mulher, ao mesmo tempo que dizia:

Tanto vale fazer Eva
De uma costela de Adão,
Como do rabo de um cão.

Em Trás-os-Montes, trocou-se o cão pela raposa e daí o pensar-se na mulher e nas manhas dela herdadas.Na tal guerra dos sexos, os homens sempre gostaram de se assumir como não tendo erros, em contraponto com a mulher. Então, conta-se que uma mulher e o diabo estavam em grande disputa. Deus não gostou do que viu e mandou S. Pedro a separá-los. O santo lá foi, mas eles estavam muito zangados e não lhe obedeceram; perdeu a paciência e, não vendo outra forma melhor de resolver a questão, pegou de uma faca e cortou-lhes as cabeças. De volta, o Senhor quis saber como se havia desempenhado da incumbência. S. Pedro informou:
— Eles não se calavam, cada vez faziam pior e, então, eu cortei-lhes as cabeças.
— Isso não se faz, disse Deus. Não era razão para tamanho castigo. Volta lá e põe as cabeças no seu lugar.

S. Pedro, não muito convencido, lá foi. Mas, talvez porque não estivesse com a devida atenção, colocou as cabeças, mas trocadas de lugar: a da mulher no diabo, a do diabo na mulher. Não admira, por isso, que esta tenha ficado com um feitio tão difícil, a ponto de os homens dizerem:

Não há coisa que mais custe,
Do que amar uma mulher;
Está sempre c’o nariz torto,
Ninguém sabe o que ela quer.

 E ainda:

Que os homens são o diabo,
Não há mulher que o negue;
Mas nenhuma quer ficar
Sem o diabo que a carregue.

 Ao que elas respondem mais ou menos assim:

Hei-de casar este ano
Ou para o ano que vem;
São os homens mais baratos,
Custa um cento um vintém.

 Ou também:

Semeei trevo no mar,
Só me nasceu uma jeira;
Quando nasceram os homens,
Nasceu fraca sementeira.

 Mas a verdade é que uns e outras não queriam, e hoje ainda não querem, outra coisa que não o estarem juntos para poderem fruir-se:

O meu amor é António,
O sobrenome não digo;
Não quero que ninguém saiba
O que trago no sentido.

Esta rosa, senhor noivo,
Inda onte’ era botão;
Trate dela como sua,
Meta-a no seu coração.

E tanto um e outra se metiam em seus corações que a consequência mais natural era o aparecimento dos filhos, uma nova etapa do amor que os unira e a que correspondiam preocupações e procedimentos próprios da situação.

Assim, logo que a mulher ficava grávida, a sabedoria, a crença e a tradição ditavam as suas regras, impunham comportamentos e decisões:

A mulher grávida não podia continuar a dependurar a chave de casa na fita do avental, porque a criança poderia nascer com o desenho da chave marcado na cara.

Também não podia cheirar flores, porque o filho poderia nascer com elas marcadas no corpo.

A mulher grávida que passasse por debaixo do pálio, numa procissão, teria um parto fácil.

Na hora do parto, para o apressar, devia cortar-se um fio de linha vermelha em pequenos pedaços e dá-los a beber em vinho à parturiente.

Nascido o menino, quase sempre com a mãe sentada no banco parideiro, bem agarrada às respectivas asas, aparado pela experiente aparadeira, havia que ter em conta inúmeras obrigações que vinham de uma tradição cujo início se perde no tempo:

Não se devia deixar os gatos comerem a embiga ou embímia (o cordão umbilical) para evitar que a criança ficasse ladra.

Devia pôr-se uma tesoura aberta junto da cabeceira do berço, para as bruxas não chupassem o menino.

Uma criança recém-nascida não se podia embrulhar num saco, para evitar que ficasse ladra.

Logo depois de nascida, o pai devia deitar-lhe na boca um pouco de vinho, para enrijar.

Quando se entrava na casa de mulher parida devia dizer-se: Benza-te Deus, para não secar o leite.

Se a mãe tivesse a dada, isto é, infecção no seio, devia talhar-se da seguinte forma: à noite, com a mama doente voltada para a lua, dizia-se:

O bô home me deu pousada,
A má mulher me fê-la cama,
Em cima de vides,
Em cima da lama.
Bai-te dada desta mama.

Com o nascer da criança, continua o povo a cantar, agora uma outra forma sublime de amor. São as canções de embalo, de embalar ou de nanar. Com o filho ao colo, apertado ao peito, a mãe, ao mesmo tempo que o adormece, pelo muito que lhe quer e pelo bom futuro que lhe deseja, já o confunde com o próprio Deus de quem espera Suas bênçãos:

Ó meu Menino Jesus,
Descalcinho pelo chão;
Metei os vossos pezinhos
Aqui no meu coração.

António Lopes Pires

Bibliografia 

Fernandez, Xoaquin Lorenzo, Cantigueiro Popular da Limia Baixa, Deputación Provincial de Ourense e Museo do Pobo Galego, 2004.
Lima, Fernando Pires de, Cancioneiro de Novais.

 

 

 

 

 

 

 

Actualizado em Quinta, 09 Julho 2009 16:44