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A Noite de S. João PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

Biblioteca Etnográfica 

A noite de S. João, dizemo-lo sem receio, é das mais significativas e mais amadas do Povo Português. Podemos afirmar não haver, no passado, um passado ainda relativamente recente, povoação grande ou pequena onde se não celebrasse, de formas eventualmente diversificadas, mas sempre com entusiasmo, esta noite singular.

Vem de longe, de muito longe, a celebração da chamada quadra dos santos populares em que esta noite se insere.

As primitivas culturas pagãs celebravam, ciclicamente, os naturais acontecimentos da roda do ano que interpretavam a seu modo e em conformidade com a sua tradição construída durante milénios.

As ocasiões dos equinócios e dos solstícios são os momentos mais marcantes dessa cultura e neles os povos colocaram as suas fundamentais celebrações.

Mais tarde, factores culturais hispano-godos, mouriscos, judaicos e cristãos moldaram decisivamente estas primitivas culturas. Mais tarde ainda, as viagens ultramarinas, a vinda de escravos e, por via burguesa, a influência de elementos palacianos mais ou menos eruditos, condicionaram em definitivo a forma das celebrações do Povo Português. Mas, a força da tradição pagã é tanta que as suas marcas chegam até nós.

Vejamos o solstício do Verão, vejamos as festas da quadra dos santos populares. Como as demais épocas festivas da tradição pagã, também estas são cristianizadas. Deixou-se é certo, de fazer a celebração do solstício, expressão que significa Sol parado, pois pensando os primitivos que o Sol se deslocava em volta da Terra, davam conta de que durante um período de 5 ou 6 dias antes de o Sol atingir o seu ponto mais a norte e de outros tantos dias depois, as sombras não sofriam alteração ou seja, durante aqueles dez a doze dias, a duração dos dias e das noites não sofria modificação.

Também deixou de se celebrar a relação com o divino, com o sobrenatural, com vista à existência próxima de boas colheitas. Mas manteve-se o desejo de boa relação com o amor, visando o casamento, visão ainda hoje associada a estas celebrações.

A influência cristã é decisiva nas marcas que imprime em toda essa cultura. As grandes festas e épocas festivas da tradição pagã foram cristianizadas. Mas o povo manteve, apesar de tudo, das suas crenças ancestrais, uma presença bem significativa, designadamente, por ocasião dos equinócios e dos solstícios. Veja-se, então, o caso dos chamados santos populares: Santo António, S. João e S. Pedro. Bem se afadigou a igreja no esclarecimento dos seus fiéis a respeito das características destes importantes vultos, o primeiro, um sábio no conhecimento das Escrituras, “a Arca do Testamento” no dizer do Papa Gregório IX, o segundo, o precursor, um mártir da fé, e o terceiro, uma das colunas da Igreja, chefe dos apóstolos, o primeiro representante de Cristo, mártir também ele. Todavia, para o povo, celebrando-os por ocasião do solstício de Verão, outro conceito deles não poderia ter do que partidor de bilhas de água de moças na flor da vida, casamenteiros, foliões.

Por isso, nessas três enormes noites de Junho, de formas certamente diferenciadas de região para região de Portugal, o povo dançava enquanto dizia:

Santo António p’ra ver as moças
Fez uma fonte de prata;
As moças não vão a ela,
O santo todo se mata. 

S. João fora bom santo,
Se não fosse tão gaiato; 
Levava as moças p’ra fonte,
Iam três e vinham quatro.

O S. Pedro no seu dia,
Pediu ao Senhor, cabelo;
O Senhor lhe perguntou:
P’ra que queres cabelo, Pedro?

A noite de S. João fica situada no centro destas celebrações e é ainda do solstício que recebe a força e a magia que encantou novos e velhos e que ainda hoje, apesar das trocas de alhos por martelinhos, de cânticos e rodas dançadas à volta de um pinheiro quantas vezes adequadamente engalanado, por música pré-fabricada, nos traz alguns laivos do encantamento que ainda lhe devemos.

São elementos privilegiados desta celebração: a água, o fogo, as flores, as plantas aromáticas; têm poderes especiais, os elementos mágicos e a música.

A água está presente nas orvalhadas e nos banhos da manhã de S. João.

O fogo quem o dispensa nas fogueiras que hão-de defumar o corpo e livrar a alma dos espíritos malignos?

As flores, a rosa e cravo, símbolos do amor quem as não quer?

As plantas, aromáticas ou não, o rosmaninho, o alho-porro, as alcachofras…podem lá faltar?

E na nunca acabada guerra entre os dois sexos – quanto mais se guerreiam mais se querem – quem não arrisca a roubar os vasos de flores e de outras plantas ornamentais, para que a magia da flor possa conduzir ao milagre do amor?

Ai, e a magia dos balões e dos foguetes para contacto com o superior e o sobrenatural?

Ai, e a magia das pancadas com o alho-porro para afastar o inimigo e os seus males?

Ai, e a magia das fogueiras de rosmaninho cujo fumo afastava os espíritos do mal e “tirava a ronha” a quem a tinha?

Ai, e a magia da meia-noite, a hora mágica por excelência, a hora em que se tomavam os mais importantes procedimentos, quer para se poder ler o futuro, quer para influenciar as divindades?

Ai, e a magia do antes-de-nascer-o-Sol?

Ai, e a magia dos ovos abertos à meia-noite e guardados numa vasilha com água para, de manhã, antes do Sol nascer, se saber da profissão do futuro marido?

Ai, e a magia do banho no rio, o banho santo, ao nascer do Sol?

Ai, e a magia das alcachofras?

Ai, e a magia da música no cântico para homenagear a divindade e para pedir pelo próximo casamento?

Ai, a magia da noite de S. João, da pequena grande noite de S. João…

  À porta de S. João
Nascem rosas amarelas;
S. João subiu ao céu
A pedir pelas donzelas.

Ai, a magia da noite de S. João…

 

S. João, S. João, S. João
Não deixeis este Verão passar;
Dai-me noivo, dai-me noivo,
Dai-me noivo, quero-me casar.

Ai, a magia da noite de S. João…

S. João adormeceu
Dentro de uma canequinha;
Os ratos deram com ele,
Roeram-lhe a piroquinha.

Ai, a magia da noite de S. João…

António Lopes Pires

 

Actualizado em Segunda, 08 Junho 2009 12:42