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O Pãozinho de Nosso Senhor PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

(A BROA NA REGIÃO DE VISEU)

Não sabia Cristóvão Colombo a importância que viria a ter nas sociedades portuguesa, europeia e de outros pontos longínquos do Planeta, o simples facto de trazer do México alguns grãos da semente de uma planta até então desconhecida na Europa e que os Portugueses se encarregaram de espalhar por todo o mundo durante o tempo ímpar dos Descobrimentos: o milho-grosso, nome por que foi conhecido entre nós, para o distinguir do milho-miúdo e do milho-painço, os até então existentes e a quem o recém chegado destronou pelas incomparáveis características que apresentava, face aos seus parentes mais velhos e mais pobres.

A sua difusão em Portugal, pelas exigências culturais em solos e água, fez-se pelos distritos do Noroeste litoral, de Leiria até ao Minho, penetrando no interior, sobretudo no distrito de Viseu.

Para as pobres populações rurais desta região, o milho constituiu uma riqueza inigualável, a par da castanha, outra importante fonte alimentar. Dele, em conformidade com a finura da moagem, se faziam os carolos e as papas, o caldo enludrado, o caldo de farinha e o pão. Broa é denominação recente, dada por quem se afez a preferir o pão de trigo, a princípio não só para fazer esquecer as dificuldades económicas do passado, mas ainda para mostrar um estatuto de vida que pôs ao seu alcance o que antes era fidalguia de uma minoria de gente rica e privilegiada. Na região de Viseu, pão era de milho e o roubo nominal feito pelo de trigo é ofensa que os pobres do passado não perdoariam.

A cultura do milho era a cultura. O resto o complemento. Começavam os trabalhos na Primavera e terminavam no fim do Verão. A sementeira, a sacha, a renda, as regas frequentes com água de balde de poços profundos, o corte da bandeira, a ceifa, a escamisada, a malha, a seca e o transporte para grandes arcazes ou pequenas arcas de madeira era o rosário de trabalhos e canseiras que só a importância do produto final podia justificar.

O milho servia de moeda de pagamento aos trabalhadores rurais.

Por um palmo de terra alheia onde se pudessem cultivar uns punhados do precioso cereal, se pagavam rendas elevadas e se sofria um ano inteiro.

O pão era o alimento dos pobres: ao mata-bicho uma côdea com um pouco de aguardente; ao almoço uma fatia com um punhado de azeitonas; ao jantar uma malga de caldo de couves com um pãozinho esboroado, uns feijões cozidos … ; à merenda, um rabo de sardinha ajudava a engalhar um naco de pão; à ceia o sempre presente caldo de couves, as batatas e o pão.

Casa onde não há pão … todos ralham e ninguém tem razão.

Não admira, pois, que à volta do pão houvesse todo um conjunto de regras e respeitos. A mulher girava ao moinho para transformar em farinha o grão sagrado a quem toda a família se rendia. De volta, qual sacerdotisa, preparava o cerimonial herdado de gerações e gerações. Depois de se benzer e pedir a ajuda divina, dava início ao ritual que havia de, mais uma vez, mudar o pó em vida. E enquanto fazia sobre a massa a cruz de Cristo, recitava com a maior devoção:

— Em nome do Pai, do Filho e do Sprito Santo. Deus te acrescente como o milho da semente. Amém.

Metido o pão no forno, só restava aguardar com a serenidade de quem tem a consciência tranquila e todo o tempo do mundo, que o milagre se ultimasse – o de ter ali nas suas mãos calejadas o fruto do trabalho de uma família durante meses e meses e o governo da casa durante uma semana.

O pãozinho de Nosso Senhor, como lhe chamavam, estava agora nas mãos da sacerdotisa até chegar às bocas sempre abertas - quais pardais recém nascidos - da canalha miúda e dos outros, para ganharem forças com vista a novo ano de sacrifícios, a qual também garantia o cumprimento das regras, também sagradas, impostas por aquele sagrado pão: a faca havia de cortá-lo com respeito, nunca de bico, por ser pecado picar a Nosso Senhor; bocadinho que caísse ao chão, estava pronto a ser comido depois de beijo respeitoso; e pecado seria igualmente guardar o pão na arca, na tábua ou no cesto, com o lar voltado para cima, porque isso seria pôr a Nosso Senhor de pernas para o ar.

O pãozinho de Nosso Senhor está hoje transformado na broa de que se fala nem sempre com o respeito que merece, e que só uma minoria de verdadeiros privilegiados da região de Viseu pode saborear, porque só um restrito número de mulheres, semanalmente, se assumem como sacerdotisas defensoras dos velhos rituais que conduzem ao verdadeiro pãozinho de Nosso Senhor.

 

António Lopes Pires

Actualizado em Segunda, 09 Janeiro 2012 23:57