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Folclore, a Cultura Tradicional e Popular PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

Etimologicamente, a palavra folclore significa saber do povo. Não de todo o povo, isto é, de todas as pessoas, mas daquelas cujo saber, talvez, melhor dizendo, cujos saberes foram ou são transmitidos de geração em geração pela via oral ou pela imitação. Trata-se de contar o que se ouviu contar, de fazer como se viu fazer, de acreditar no que se viu acreditar, sem se porem em causa procedimentos, crenças, comportamentos e verdades, no fundo, os saberes praticamente imutáveis de gerações e gerações.

Isto significa que a única escola frequentada por este povo foi a escola da vida onde a aprendizagem se baseou, naturalmente, no empirismo, na rotina, na prática das coisas.

A escola instituição, a escola onde se aprendem os fundamentos científicos dos saberes não passou por ali. E, quando passou, não poucas vezes sentiu dificuldades para vencer crenças e rotinas de séculos, para ver seguidos os seus princípios e ensinamentos. É que a herança cultural de um povo tem a força que vem da alma, a força que vem de algo que corre no sangue e que, como é o caso português, tem raízes profundas de muitas centúrias.

Em pleno século XXI interrogar-se-ão porventura os menos atentos ao fenómeno folclórico sobre se valerá a pena perder tempo a falar ou a estudar saberes ultrapassados, procedimentos rotineiros, crenças desacreditadas. Se valerá a pena continuar a pesquisar, a recolher, a estudar e a divulgar esses saberes.

Ninguém ama o que não conhece. Por isso, é preciso divulgar pelos meios possíveis a cultura tradicional dos Portugueses, ou seja, o Folclore nacional, e que cada vez mais os eruditos lhe dediquem um pouco do seu tempo e dos seus cuidados para que cada vez mais este sector da Cultura Portuguesa tenha a credibilidade que merece. É a história de um povo simples, bom e sacrificado que está em causa, é a história de uma ruralidade nem sempre bem conhecida e compreendida - sobretudo por um certo novo-riquismo cultural - que tem de ser defendida, é a pergunta: quem somos nós? que pode encontrar aí a sua melhor resposta.

Hoje quando se fala de folclore, infelizmente, não poucas  vezes, há quem o faça de forma depreciativa, a denotar a triste ignorância de quem se julga culto e sabedor. Porém, é preciso compreender o trabalho que vem sendo desenvolvido por interessados que vão desde o especialista de cultura superior ao simples estudioso do fenómeno, passando pelos grupos etnográficos que põem seriedade no trabalho que desenvolvem.

Numa Europa que cada vez se vai tornando mais igual, (como é difícil trazer do estrangeiro, para os filhos ou para os netos uma lembrança que não possa ser comprada na loja de esquina...) quem melhor do que a Cultura Tradicional para identificar as diferentes regiões e as pessoas delas oriundas? Ninguém nos distinguirá dos gregos ou dos holandeses pela marca do automóvel, pela cor da gravata, pelas calças coçadas ou pelo brinco nas orelhas; mas ninguém minimamente informado deixará de reconhecer que, por exemplo, no contexto da grande Europa, se fala de um pequeno cantinho a que se chama a região de Viseu, quando se fala da broa de milho branco com um pouco de mistura, da chouriça do lombo, da cebola cortada em quartos com um punhado de sal, da bola de vinha-d'alhos, das rezas contra o mau olhado, a rângula, o mal de imbeija ou a cabrita, quando se buscam duas rodelas de batata para curar, numa noite, as dores terríveis de uma xeca[1], quando, faça chuva ou faça vento, durante toda a Quaresma, depois da meia-noite, se canta pelos sete poisos [2] da aldeia para salvar as almas do Purgatório, quando, na quadra natalícia, se vai de porta em porta cantando em honra dos moradores, quando os meninos se divertem com o jogo da esbarra [3] ou do pião, quando as mulheres vêm para a rua jogar o púcaro[4], quando se dançam os simples e quase ingénuos jogos de roda, a Carinhosa, a Ladeira do Castelo, os viras, os fandangos ou os viras afandangados, batidos ou trespassados, quando em pequenos museus etnográficos se podem ver as marcas objectivas de vida do passado desde os trajos característicos com seus adornos e complementos, os objectos de uso doméstico e pessoal, as alfaias do quotidiano agrícola, os instrumentos musicais da tradição popular, os ciclos do lã, do linho, do pão e do vinho, ... e tantas coisas mais.

Isto é o Folclore ou, como lhe chama a UNESCO, a Cultura Tradicional e Popular.

António Lopes Pires



[1]Enxaqueca.

[2]Paragens em encruzilhadas ou lugares especiais.

[3]Jogo do botão, serralhado das calças ou da camisa.

[4]Jogo próprio do Entrudo.

Actualizado em Sexta, 30 Dezembro 2011 14:38