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| Dia de Todos os Santos |
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P.e Cassiano Guimarães
No séc. IX, mais precisamente no ano de 837, a data da festa de Todos os Santos é fixada a 1 de Novembro pelo Papa Gregório IV, por decreto real. Até aqui este dia era volátil, ou seja, não tinha uma data fixa. Com o decreto real emitido por D. Luís I de França a data passa a ser fixa tornando-se esta festa universal e uma das maiores solenidades de toda a Igreja Católica. De acordo com a tradição, as suas origens prendem-se com o facto de a Igreja Católica poder esquecer durante o ano, nas suas celebrações litúrgicas, o nome de um ou outro santo. Assim, criando este dia, corrigia a sua falta. Por outro lado, a prática piedosa de se consagrar um dia à oração pelos defuntos já existe no Ocidente desde o séc. VII, embora a data fosse variável. É já no séc. X que Santo Odilão, abade de Cluny1, junta à celebração habitual de Todos os Santos orações em favor do descanso eterno das almas dos defuntos. Esta introdução levou a que mais tarde se separassem as duas datas. Assim, o dia 1 de Novembro continuaria a ser dedicado a Todos os Santos e o dia 2 seria exclusivamente dedicado aos Fiéis Defuntos. Ontem como hoje este é um período de grande recolhimento e devoção quer no seio da cristandade quer fora dela. Os entes queridos que já partiram são lembrados com mais fervor, se assim se pode dizer, nestes dois dias. Habitualmente, reserva-se o dia 1 para a ida aos cemitérios a limpar, pôr flores, velas, fazer companhia a pais, avós, maridos, filhos… que já fizeram a passagem. À noite, ao som do dobre a finados na torre da Igreja, há o terço pelas intenções de cada um. O dia 2 é dedicado às celebrações cristãs, à oração pelos entes queridos, ao relembrar daqueles que nesse ano litúrgico partiram, às procissões nos cemitérios. Fui à sepultura ver No entanto, tal como noutras festividades cíclicas, também aqui o sagrado e o profano andam de mãos dadas. Em muitas localidades de Portugal, muito especialmente, no norte transmontano, ainda hoje se realiza a recolha da “lenha das almas” ou “pau das almas” no dia 1 de Novembro. A lenha é recolhida pelos jovens solteiros e leiloada ou vendida às carradas em hasta pública no largo das aldeias. O dinheiro obtido é utilizado para mandar dizer missas pelas almas do Purgatório. Também é hábito fazer-se uma fogueira, chamada de “canhoto” ou “fogueira dos santos” no adro da igreja à volta da qual o povo bebe e como castanhas, o tradicional “magusto dos santos” num silêncio quase absoluto em homenagem aos que já partiram. O ritual da fogueira, tal como muitas outras manifestações populares, tem reminiscências pagãs com ligação aos cultos solares e também a antigos ritos de prevenção e esconjuro. Etnógrafos há que consideram as fogueiras dos “Santos” como um costume de origem céltica, relacionado com os festejos do ano céltico, que era celebrado precisamente no dia 1 de Novembro. Um outro costume ainda muito presente no nosso país prende-se com as práticas alimentares deste dia. De reminiscências mágico-propiciatórias2, de purificação ou prevenção surgem um pouco por todo o lado as tradicionais “papas de milho” ou de “carolo”, as castanhas assadas, a carne de cabra, as maçãs, o vinho em quantidade, tendo por objectivo acalmar não só as forças maléficas mas também a procura da fertilidade e da abundância. Muito enraizado na cultura popular da região de Coimbra, outro hábito deste dia é o peditório do “Pão por Deus”. As protagonistas deste acto são as crianças, embora num período de tempo mais afastado, participassem também os pobres. As crianças andam de porta em porta a pedir: “Bolinhos, bolinhós
Um pouco mais para sul, na região da Sertã, o ritual é semelhante embora a cantilena difira um pouco: “Bolos, bolos,
As pessoas, em geral, colaboram com broas de farinha milha, nozes, castanhas, romãs, figos secos, enfim, com frutos próprios da época. Em terras algarvias havia o costume de, no Dia de Todos os Santos, andarem forasteiros, e mais propriamente indigentes pelas portas a pedirem “os Santos”, que mais não eram, que figos recheados, romãs, passas … cantando no final e em sinal de agradecimento, uma oração aos ofertantes. Há regiões onde, até há bem pouco tempo, subsistia o hábito de à meia-noite do dia 1 para 2 se pôr a mesa com castanhas para os entes falecidos lá irem comer durante a noite “não devendo depois ninguém tocar nessa comida, porque ela ficava babada dos mortos” 5 Esta superstição de que os mortos pairavam na noite do dia 1 para o dia 2, percorrendo o espaço dos vivos, ainda hoje se verifica em algumas aldeias da Beira Alta. Um exemplo disso é a superstição de que a partir do dia 1 de Novembro não se podem apanhar nem comer figos das árvores pois, crê-se que estes estão também “babados dos mortos”. Em terras do Barroso, parte mais serrana de Trás-os-Montes, no dia dos Fiéis Defuntos, ainda hoje, é hábito acender velas e candeias no cemitério, no adro da Igreja e nas casas, para alumiar as almas. Como foi dito, ontem como hoje, o sagrado e o profano continuam de mãos dadas. Também nesta festividade tão especial para as populações, sempre imbuída de recolhimento, espiritualismo, religiosidade e superstição. Maria Odete Madeira Bibliografia: - Oliveira, Ernesto Veiga de, Festividades Cíclicas em Portugal, colecção Portugal de Perto, n.º 6, Publicações Dom Quixote, 2.ª ed. 1995 - Barros, Jorge e Costa, Soledade Martinho, Festas e Tradições Portuguesas, Novembro e Dezembro, Circulo de Leitores, 2003 - Fontes, António e Fonte, Barroso da, Usos e Costumes de Barroso, Âncora Editora, 2.ª edição, 2005 - Revista Lusitana, Vol. 16, N.º 1 a 4, Dir. de José Leite de Vasconcelos, Livraria Clássica Editora, 1913 1 A Ordem de Cluny é uma ordem religiosa monástica católica e considerada como a sucessora da Ordem de São Bento no chamado movimento monacal. A Abadia de Cluny, localizada na Borgonha, foi construída no século X e exerceu profunda influência na cristandade dos séculos posteriores, aquém e além das su
as fronteiras. Em Portugal crê-se que a sua primeira influência aparece no século XI, no mosteiro da Pendorada, e os seus monges eram apoiados pelo conde D. Henrique, sobrinho de S. Hugo, abade de Cluny 2 Ou seja, com virtudes de aplacar os males. 3 In, Oliveira, Ernesto Veiga de, Festividades Cíclicas em Portugal, colecção Portugal de Perto, n.º 6, Publicações Dom Quixote, 2.ª ed. 1995, pág. 184. 4 idem, pág. 185 5 In, Oliveira, Ernesto Veiga de, Festividades Cíclicas em Portugal, colecção Portugal de Perto, n.º 6, Publicações Dom Quixote, 2.ª ed. 1995, pág. 182
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| Actualizado em Quinta, 25 Novembro 2010 09:44 |




