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Biblioteca Etnográfica

A vinte e quatro de Agosto
É o São Bartolomeu,
Menina fale a seu pai,
Que eu também falo ao meu.

O apóstolo São João Evangelista chamou-lhe Natanael isto é, dom de Deus, enquanto que os apóstolos São Marcos, São Lucas e São Mateus o designaram Bartolomeu, ou seja, Bar (em aramaico “filho de”) e Tolomai, filho de Tolomai. No entanto, a dúvida na identidade do Santo permanece e como nos diz Luís Chaves “Parece que o demónio quis vingar-se do seu dominador, furtando-o à certeza do conhecimento dos homens.”(1)

De acordo com a tradição cristã, Bartolomeu terá sido o esposo nas bodas de Caná da Galileia, onde Cristo, a pedido de Sua mãe Maria, realizou o milagre da transformação da água em vinho. Posteriormente, São Bartolomeu acompanhou Jesus até à Sua morte, participando e assistindo às Suas pregações, aos milagres e outras passagens da Sua vida.

Há referências de que no séc. II se encontra na Índia, na China, na Arábia, nas margens do Mar Negro, na Arménia…, como pregador. Terá sido precisamente na Arménia que o irmão do rei Polímio, juntamente com outros sacerdotes pagãos, receando o poder de São Bartolomeu, que havia emudecido o demónio, seu ídolo, rezando “cem vezes por dia, outras tantas de noite”(2), o martirizaram esfolando-o vivo e decapitando-o num dia 24 de Agosto, no porto de Albanopolis, no Mar Cáspio.

Devido ao seu martírio, São Bartolomeu é considerado o padroeiro daqueles que trabalham em peles: curtidores, luveiros, encadernadores, etc. É também referido, em várias localidades de Portugal, como advogado das doenças das crianças (medo, gaguez, atraso na fala, epilepsia, etc.), exorcista, protector de males com sintomas de possessão demoníaca, de objectos perdidos, esposas enganadas, entre outros.

Senhor São Bartolomeu,
Prometi-lhe uma novena
Que me livrasse do medo,
Porque o medo é uma pena.

Em terras lusas, a maior parte das imagens e pinturas de São Bartolomeu, oriundas, na sua maioria, do século XVI, apresentam-no vestido ou esfolado com a pele às costas, ou dependurada no braço. A faca, instrumento do seu martírio, é uma constante, bem como o demónio acorrentado.

São Bartolomeu em detalhe do Juízo Final de Michelangelo, altar da Capela SistinaSegundo a tradição popular, este Santo tem uma forte ligação com o diabo, uma vez que se crê que ele era o guardião desta entidade das trevas. Os arménios acreditam que ele retirou o diabo do corpo de um filho do rei Polímio, da Arménia, restituindo-lhe a vida, e aprisionando depois o demónio. Só ele, de entre os doze Apóstolos, tinha poderes para o dominar, libertando-o uma vez por ano para evitar a sua revolta. O dia escolhido por S. Bartolomeu para esta fugaz liberdade foi o de 24 de Agosto. Por isso, ainda hoje, como outrora, se ouvem em muitas regiões de Portugal as expressões “anda o diabo à solta” ou “o diabo anda de quatro”, provocando a desordem total e o pânico no povo crente que, como sabemos, acreditava e temia demónios, bruxas, duendes, lobisomens, enfim, figuras sobrenaturais que pairavam na imaginação das populações. Quando no dia do Santo os ventos se faziam sentir mais do que o habitual, ou paravam momentaneamente, ou o mau tempo ameaçava, o povo atribuía estes fenómenos às vinte e quatro horas de liberdade do demónio. Por isso, regra geral, neste dia não se trabalhava ou se se trabalhasse era em actividades leves, não fosse o diabo tecê-las e algum “desastre” acontecer.

Em muitas zonas de Portugal, o dia de São Bartolomeu inclui, também, o tradicional banho santo no mar, nos rios, nas fontes. Segundo a crença popular, o banho santo é purificador e exorcizador de todos os males (a água tornada milagrosa neste dia por intervenção de São Bartolomeu). De acordo com o povo, o banho santo deve ser tomado sempre em número impar de vezes, pois, como nos diz o padre António Frankelin Neiva Soares, “o número impar está ligado ao masculino e ao mais forte”(3).

Dia de romaria, um pouco por todo o país os romeiros deslocam-se até junto do Santo da sua devoção, dão as voltas rituais à igreja, geralmente no sentido contrário aos ponteiros do relógio, cumprem promessas, assistem à missa, afagam e beijam o Santo, em agradecimento por algum favor especialmente concedido, tomam os seus banhos santos, merendam em animada confraternização com familiares e amigos e regressam aos seus lares com a certeza do dever cumprido. É assim hoje como à séculos. A fé e a superstição de mãos dadas no dia 24 de Agosto, dia de S. Bartolomeu.

Em Silgueiros, no distrito de Viseu, o S. Bartolomeu tem, também, tradição secular. Segundo fontes históricas, a primeira ermida dedicada ao Santo já existia em 1732, como atesta o padre cura Joam Ferreira Pimenta nos registos paroquiais setecentistas. Neles é dito que Silgueiros “Tem as hermidas seguintes…fora do lugar de Falorca a de S. Bartholameu…”.(4) Mais à frente, no mesmo documento, o referido padre cura salienta que “A algumas (subentenda-se ermidas), acodem devotos e romeyros procique nos seos dias: A saber a de S. Bartholameu que há tradiçam que foy pr.ª fundação desta igreja…”(5) o que prova que, também aqui, o povo silgueirense venerava este Santo.

Ontem como hoje, o sagrado e o profano andam de mãos dadas neste dia. À festa religiosa com procissão e pagamento de promessas junta-se a secular feira de S. Bartolomeu que segundo o dito padre cura “Tem esta parochia hua feyra em Falorca que se faz em dia de S. Bartholameu, existe só no dia, a qual é Franca.” (6)(7)

Feira de capital importância para a vasta freguesia de Silgueiros, nela se vendiam os produtos da terra e se comprava tudo do que se necessitasse para o longo inverno que se avizinhava. As alfaias agrícolas eram as mais procuradas. E as gamelas de Sabugosa; e as vassoiras de lentisco. E tantas coisas mais. Era também conhecida como feira dos melões, dado que era frequente encontrar este fruto em abundância no recinto de S. Bartolomeu. Os barros vermelhos da Gândara ou os pretos de Molelos também marcavam a sua presença, e faziam as delícias dos meninos que, por tradição, levavam para casa uma miniatura de cântara, de jarra, de garrafão.

Hoje a festa religiosa ainda existe. A ela acorrem muitos devotos em agradecimento por alguma benesse concedida ou simplesmente movidos pela fé. Muitos dos nossos emigrantes marcam a sua presença nesta altura para poderem estar na terra em dia de S. Bartolomeu. A feira também existe. No entanto, o progresso alterou-lhe o local, o bulício característico, a afluência de gentes e muito do encanto de outrora.

 

Maria Odete Madeira
Passos de Silgueiros, Agosto de 2010

(1) In, Rubrica “Nos Domínios da Etnografia e do Folclore” - Luís Chaves, Revista Ocidente, n.º 40, Vol. XIV, Agosto de 1941, pág. 284
(2) In, Rubrica “Nos Domínios da Etnografia e do Folclore” - Luís Chaves, Revista Ocidente, n.º 32, Vol. XI, Dezembro de 1940, pág. 482
(
3) Em declarações à Agência Ecclesia, em 22 de Agosto de 2008
(
4) In, Oliveira, João Nunes de, “Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas”, Palimage, Viseu, 2005, pág. 158
(
5) Idem, pág. 158
(6) A feira franca é uma feira em que os vendedores e os compradores não têm de pagar portagem (passagem paga mediante uma taxa ao poder local) e impostos. As feiras francas foram criadas para incentivar o comércio em algumas zonas.
(7) Idem, pág. 159

Bibliografia
Barros, Jorge e Costa, Soledade Martinho, “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VI, ed. Círculo de Leitores, 2002Revista Ocidente, n.º 32, Vol. XI, Dezembro de 1940Revista Ocidente, n.º 40, Vol. XIV, Agosto de 1941Oliveira, João Nunes de, “Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas”, Palimage, Viseu, 2005.

 

Actualizado em Sexta, 24 Setembro 2010 14:35